Em 2013, este blogue teve o cuidado — quase ingénuo — de alertar para o possível fim da disciplina de Educação Tecnológica. Na altura, o Ministério, numa demonstração exemplar de visão estratégica, decidiu reduzir a carga horária desta área a algo meramente simbólico, quase decorativo, e ainda teve a gentileza de a transformar numa opção. Afinal, quem precisa de saber fazer quando se pode apenas saber falar sobre o fazer?
Com o passar do tempo, o abandono do “saber fazer” deixou de ser tendência para se tornar política assumida. A Educação Tecnológica foi sendo empurrada para fora do sistema educativo em nome dos tão venerados “altos saberes”. Presume-se, claro, que trabalhar com as mãos, projetar, construir ou experimentar não envolve qualquer raciocínio científico, comunicação ou pensamento crítico — atividades claramente menores quando comparadas com a nobre arte da memorização abstrata.
Este chamado “conhecimento poderoso”, universal, abstrato e distante da realidade, apresentado como solução para todos os males do mundo, continua a ser aplicado com rigor. Curiosamente, é também um excelente instrumento de exclusão e segregação, sobretudo para o aluno dito “normal”, aquele que ousa querer perceber para que serve aquilo que lhe mandam decorar. Mas esse detalhe é irrelevante: o importante é cumprir o programa, mesmo que ninguém o compreenda.
Quase sete anos depois, a missão foi cumprida. A disciplina desapareceu do ensino básico e secundário. O ensino prático foi eliminado com a eficácia silenciosa de quem apaga uma luz e segue em frente. Hoje partilho a realidade concreta de uma escola deste país: espaços abandonados, oficinas desertas, sinais claros de um desprezo institucional — um cenário quase dantesco, digno de registo fotográfico.
Num dos corredores, resiste ainda uma frase pintada na parede: “Pedras no caminho? Guardo todas, para construir um castelo.”
Infelizmente, o castelo ruiu. Mas fica o consolo: o abstrato permanece intacto.










